O lado megera das mães
Martha Medeiros
Em menos de um mês, minha cadelinha Bunny foi doada para uns primos. Superei. Nada como aprender desde cedo a lidar com frustrações.
Suponhamos que você more em apartamento e tenha um filho. Um menino, ainda. Então um dia ele visita um amiguinho que mora numa casa enorme, ampla, com milhões de empregados e um jardim igualmente espetacular. Quando ele retorna no fim do dia, olha para o apartamento de vocês com um certo muxoxo e, na hora do jantar, resolve pedir pra você uma coisa que ele pensa que se resolve assim, com um estalar de dedos. Você sabe o quê. Um cachorro.
Na casa com jardim espetacular seu filho viu labradores, dinamarqueses, pastores alemães e algumas amostras grátis de poodle, todos convivendo em harmonia e enchendo de afeto aquele lar Beverly Hills. Mas seu filho mora em apartamento. E você, profissional ocupadíssima e dona-de-casa zelosa do seu patrimônio – que não é imenso nem espetacular, mas é bem ajeitadinho -, não quer um cão estirado no seu sofá. E muito menos quer acumular serviço levando-o para passear, para vacina, para cruzar. Você já está com a agenda cheia. Não está em condições de aumentar a família.
“Mas, mãe, eu vou cuidar dele”.
Eu, no caso, é um pirralho que nunca levantou uma toalha do chão, que nunca dobrou uma camiseta, que nunca sabe onde estão suas meias, que não coloca um copo de volta no lugar. Ele quer que você acredite que é ele quem vai cuidar do cachorrinho? Que bonitinho. E Papai Noel, vai bem?
Megera, eu sei. O cachorro é o melhor amigo do homem, o mais fiel, um companheiro para todas as horas. Eu já fui criança e quis um cão, e tanto torrei a paciência que ganhei um, mesmo morando em apartamento. Coisa mais lindinha, a Bunny. Chorava a noite inteira, aquela cadela, queria mordomia, dormir em cama com edredom. Em menos de um mês foi doada para uns primos. Superei. Nada como aprender desde cedo a lidar com frustrações.
Há cães que vivem muito bem em apartamento, que não incomodam nada, que são bem treinados, quem não sabe disso? Todos sabem. Mas brincar com cachorro é uma coisa, cuidar de cachorro é outra, e pra isso é preciso tempo, disposição e espaço. Espaço no coração, inclusive – admito, envergonhada. A garotada um dia crescerá e terá liberdade para fazer suas próprias escolhas, custa esperar um pouco?
Maltratar as criancinhas é coisa que não se faz. Megera.
Domingo, 15 de agosto de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.